A construção da nossa história

As condições de vida em que você estava inserido no momento do seu nascimento não foram ao acaso.

Existe uma história que foi sendo construída antes do nosso nascimento que nos inseriu em um determinado contexto.

As escolhas e trajetórias dos nossos antepassados montaram o cenário para a nossa própria história. Já parou para pensar nisso?

Pesquisando pelos meus ancestrais, me dei conta de como era a minha vida quando eu nasci e de como cheguei até aqui.

As histórias dos meus antepassados são as mais diversas mas existe uma coisa em comum:

  • eu e minha irmã nascemos em uma condição melhor que os meus pais;
  • meus pais nasceram em uma condição melhor que meus avós;
  • e meus avós nasceram em uma condição melhor que meus bisavós.

Por um lado tenho um bisavô negro que viveu no interior do estado do Rio de Janeiro. Nasceu 10 anos depois da abolição da escravidão, ou seja, muito provavelmente seus pais foram escravizados.

Por outro, tenho um bisavô espanhol que muito novo migrou sozinho para o Brasil e foi trabalhar duro nas fazendas de café de Minas Gerais.

Citando apenas estes dois como exemplo, vejo como eles caminharam bem, criaram seus filhos da melhor maneira que puderam e estes, consequentemente, puderam dar algo ainda melhor para seus filhos.

Meu pai relata como seu avô era um senhor respeitável na cidade onde nasceu e todos gostavam dele. E essa história me inspira. Mesmo diante das adversidades que sua raça e condições poderiam lhe impor (negro, lavrador, nascido no final do século XIX), ele construiu uma história que considero de sucesso. Era amado, respeitado e, no final da sua vida, tinha a sua própria terra com 4 casas, morava na maior e alugava as demais, diz o meu pai.

Infelizmente não tenho uma foto do meu bisavô mas esta pintura de Portinari de alguma forma me conecta a imagem dele. Cândido Portinari. Preto (Cabeça De Negro), 1934. Óleo sobre tela. 70 x 50 cm. Coleção particular, RJ.

Meu pai carregou água em balde para tomar banho quando criança e se esforçou muito para se formar advogado no Rio de Janeiro. Vejo nele a mesma trajetória de evolução de seu avô que ele tanto estima.

Eu pude assim nascer em uma condição melhor. Meu pai, que por ter uma profissão que lhe rendeu bons frutos, pôde dar a mim e a minha irmã uma condição de vida mais confortável mesmo vivendo no subúrbio do Rio de Janeiro onde por diversas vezes presenciei da minha janela, guerras entre facções criminosas.

E aqui estou eu, vivendo hoje na Itália, em uma situação melhor da qual nasci. Muito provavelmente porque absorvi a mesma vontade de seguir em frente que meu pai e meu bisavô tiveram.

Olhando isso tudo, vejo claramente uma escada: um após o outro construindo os degraus para que no momento do meu nascimento eu pudesse estar um pouco mais acima e agora eu construo mais degraus para que minha filha continue subindo.

Essa é uma das coisas mais lindas da pesquisa genealógica. Descobrir a nós mesmos pelos caminhos percorridos por nossos antepassados.

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