Registros antigos de crianças abandonadas

Imagina descobrir que seu antepassado italiano foi uma criança abandonada pelos pais?

Não é raro nos depararmos com registros de nascimento de “esposti” quando estamos pesquisando pelos antepassados dos nossos clientes.

Era muito comum naquela época, o abandono de recém-nascidos. Foram aproximadamente 40.000 crianças abandonadas por ano à caridade pública ou privada na Itália. Só na “Ospedale degli Innocenti” de Florença, entre 1762 a 1862, foram abandonadas mais de 16.500!

As crianças eram deixadas na “ruota” como se dizia em Nápoles, na “scafetta” como se dia em Veneza e ainda no “presepe” como se dizia em Florença.

A “ruota dei proietti” era um dispositivo giratório de forma cilíndrica onde o recém-nascido podia ser colocado sem que ninguém da parte interna do edifício pudesse ver quem o estava colocando lá dentro.

Ruota dei proietti

Fazendo girar a “ruota”, a criança era retirada pelo lado interno do edifício. Na parte externa havia um sino que servia para sinalizar a presença da criança dentro do dispositivo.

Ruota dei proietti

A pessoa encarregada de acolher e prestar os primeiros cuidados ao recém-nascido, uma mulher (normalmente uma freira), em certos casos, dava à criança um nome de batismo como parece ser o caso deste registro de nascimento que localizamos durante uma pesquisa.

Registro de nascimento de MELANTONI MARIANTONIA. Atto di nascita n.15 anno 1884 – Comune di Campobasso. Fonte: Archivio di Stato di Campobasso.

A criança foi registrada com o prenome MARIANTONIA e o sobrenome MELANTONI, declarado pela senhora GAETANA FELITITÀ “ricevitrice dei proietti”, ou seja, a pessoa que a recebeu na “ruota”.

Registro de nascimento de MELANTONI MARIANTONIA. Atto di nascita n.15 anno 1884 – Comune di Campobasso. Fonte: Archivio di Stato di Campobasso.

Tal senhora declarou que às 18h do dia nove do mês corrente (março) encontrou a menina deixada na “ruota dei proietti”.

Nem sempre a criança abandonada tratava-se de um filho ilegítimo (fora do casamento), muitos abandonados eram de filhos legítimos cujo os pais não havia meio para sustentá-los.

Humanitäts-Anstalten, Carl Ernst Bock, 1859.

Alguns pais deixavam um sinal de reconhecimento da criança na esperança de poder encontrá-la um dia como a metade de uma moeda ou um pequeno lenço bordado cortado ao meio; Um pedaço ficava com os pais e o outro era deixado dentro da “ruota” com a criança.

Sinal múltiplo de reconhecimento: saquinho em tecido e metade de cinco centavos. Fonte: Archivio dell’Ospedale degli Innocenti di Firenze.

Às vezes os pais deixavam na “ruota” um bilhete onde indicavam o prenome e sobrenome a ser dado à criança. Em caso contrário, eram-lhe atribuídos sobrenomes.

Alguns sobrenomes indicavam claramente a condição de abandono da criança: Esposto, Esposti, Esposito, Donati, Fallaci, Orfano, Proietti, Sposito, Spositi, Trovatelli, Trovato, Ventura, Venturelli, Venturini.

Por vezes o sobrenome conferido a criança se referia ao local que a acolheu como por exemplo, “Innocenti”, aos acolhidos pela “Ospedale degli Innocenti” de Florença.

Sala de estar das enfermeiras. Fonte: Archivio dell’Ospedale degli Innocenti di Firenze.

Existem ainda, sobrenomes conferidos por instituições religiosas que a acolhiam a criança como: Dioguardi, Casadei, Vescovi, Di Dio.

O tema é extenso e amplamente estudado por estudiosos de onomástica mas, voltando ao início do artigo, se no momento da sua pesquisa genealógica você descobrir que seu antepassado italiano foi registrado sem citação de pai e mãe, saiba: sua cidadania italiana ainda sim pode ser reconhecida. Procure um profissional especializado para analisar sua documentação e orientá-lo como proceder.

1 comentário Adicione o seu

  1. helaine silva disse:

    Que tristeza!

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